Wolfrand do Barro

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No box 66 do Mercado Antonio Franco, pouco antes das sete horas, Seu Wolfrand começa a organizar o seu negócio. Sob a sombra do relógio do mercado, todos os dias ele recomeça. Cuidadosamente, retira cada peça de cerâmica e vai empilhando, uma a uma, na frente da loja. Sentado em um banco, aguarda os clientes, até o final do dia, de domingo a domingo.

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A INFÂNCIA NA ARACAJU ANTIGA

Wolfrand dos Santos nasceu em Aracaju, em 19 de julho de 1953. De origem humilde, cresceu no Bairro 18 do Forte, mas, desde menino, perambulava pelo centro da capital. Na época, o resumido, mas pujante comércio de Aracaju se restringia ao quadrilátero compreendido entra as praças Fausto Cardoso e General Valadão.  Os bondes cortavam as ruas, interligando o centro ao Bairro Industrial e senhores e senhoras elegantes exibiam seus casacos e vestidos engomados conduzidos por sapatos reluzentes.

Nesse cenário, aos dez anos, Wolfrand começou a engraxar sapatos na movimentada Rua Japaratuba. Ali, segundo ele, “os rapazinhos engraxavam os sapatos para tentar um emprego nas lojas da Rua João Pessoa”. Depois de sete ou oito sapatos, corria para casa, ansioso para entregar para mãe os trocados do dia.

O MERCADO

Em 1975, Wolfrand comprou um ponto na feira da Avenida Coelho Campos, na antiga configuração da região dos mercados antes da reforma de 1998. As barracas se amontoavam onde hoje funciona o estacionamento e a praça de eventos e o espaço para os pedestres era estreito e abafado.

                                       “A gente andava entre as barracas com os ratos passando pelos pés, mas o mercado vivia lotado e a gente vendia muito mais”

Embaixo das lonas se encontrava de tudo, de flores a bonecas, de ervas populares  a imagens religiosas. Wolfrand, desde o princípio, investiu nas cerâmicas, variadas peças artesanais produzidas no barro.

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 Com o projeto de reforma dos mercados, em meados do ano de 1998, todos os comerciantes da área foram desalojados. Sem ter para onde ir, Wolfrand conta que passou a vender suas peças pelas calçadas, sem ponto fixo. Essa situação se estendeu até a conclusão da obra de restauração dos mercados centrais, no ano 2000.

Para preencher as lojas dos mercados novos – Antônio Franco e Thales Ferraz –, os antigos comerciantes daqueles espaços foram redistribuídos nos boxes das novas instalações, através de sorteio.

                                         “Antes da reforma, os comerciantes das antigas barracas forram chamados para fazer cadastro na prefeitura. Com a inauguração fomos localizados e cada um foi recebendo seu box por sorteio. Cada comerciante precisa pagar uma taxa mensal para prefeitura pelo uso do espaço. Hoje, a taxa custa R$87,00”

Desde então, o vendedor de cerâmicas ocupa o box 66, no átrio do Mercado Antônio Franco. Trabalha na loja sozinho e suas companhias são clientes que vão chegando e os comerciantes das lojas vizinhas Sem couvert, quem vai a seu box ainda tem a chance de escolher as peças de barro ao som da sanfona do Antônio Boca Louca, o sanfoneiro do relógio.

ARTESANATO DO BARRO

Wolfrand recorda-se que, na década de 70, a cerâmica vinha de diversas cidades do interior de Sergipe: Santo Amaro das Brotas, Itabaiana, Itabaianinha e do antigo Povoado Carrapicho. Naquela época, boa parte das peças integrava o cotidiano das casas como utensílios domésticos.

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Os filtros de barro, as moringas e o purrão já foram largamente utilizados como reservatórios de água, sobretudo no Nordeste, pois o barro mantém a água sempre fresca. Ainda hoje  é costumeiro encontrar ‘água no pote’ nas casas do sertão.

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Atualmente, entretanto, o artesanato de barro está cada vez mais restrito à decoração. Apesar da demanda existente para vasos, estátuas e outras peças decorativas, a procura pelo barro diminui consideravelmente. Wolfrand explica que, como consequência, muitos fornecedores espalhados pelo interior de Sergipe deixaram de produzir.

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Hoje, a tradição no artesanato de barro no Estado está concentrada em Santana do São Francisco, antigo Povoado Carrapicho, principal fornecedor da loja do Wolfrand. Segundo ele, os artesãos do barro daquela região continuam lutando para preservar esta arte, passando o ofício para as gerações mais novas.  Apesar da considerável redução na procura por seus produtos, Wolfrand acredita que o barro representa a cultura sergipana e afirma que não vai desistir da cerâmica. “Isso aqui é meu único sustento. Pretendo vender barro até o fim dos meus dias”, revela.

* Reportagem e Fotos – Anna Guimarães

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